Caneca branca

caneca

 

Eis a mesma solidão de todos os dias

Corredores e vida vazia

Saudades e lembranças vivas

E um gole de chá quentinho na caneca de sempre.

 

Eis a mesma insônia de todas as noites

Mãos e corações vazios

Nostalgias e vontades vivas

E um gole de café puro na caneca da vida.

 

Eis a mesma dor de todas as tardes

Aliança e roupas na gaveta

Esperanças e sonhos vivos

E um gole de leite gelado na caneca da ferida.

 

Eis a mesma frustração de todas as manhãs

Vontades e corações escondidos

Lágrimas e olhares vivos

E um gole de chá gelado na caneca da saudade.

 

A caneca branca de todos os dias

O gosto ruim de todas as noites

O chá amargo de todas as tardes

E o leite azedo do medo de despertar todas as manhãs.

 

Andrio Robert Lecheta às 08:31 da manhã 28/07/2014

ao som do instrumental de Slow It Down – The Lumineers.

Partitura

piano

Todos os dias em que a saudade tocava solos de violino, ela subia as escadas até uma espécie de sótão. Abria a porta e lá estava o seu piano, parte de sua essência, instrumento que fazia transcender, levitar e iluminava suas escuridões.

Antes ele vivia empoeirado, quando o amor substituía o bem estar que antes só a música trazia à sua vida. Mas agora o que restou foram as notas da saudade. Uma partitura de alegria e solidão.

Em cada nota experimentava um sentimento que quase a sufocava de tão intenso. A música era sempre a mesma, mas cada acorde era um lugar diferente visitado num recente passado feliz.

A cada DÓ sentia o toque dos dedos dele sobre sua pele, fazendo com que se arrepiasse e seu coração disparasse no ritmo do galope de um cavalo no deserto em busca de água.

A cada RÉ sentia o gosto de seu beijo macio, adocicado e, às vezes, ácido quando era hora da despedida. Foi o gosto do último beijo dado sabendo que seria o último.

A cada MI sentia o cheiro de seu perfume impregnado em suas narinas como aroma vital para sua sobrevivência. Seu corpo esquentava, pois sentir aquele cheiro a transportava para o lado dele.

A cada FÁ sentia seu abraço de saudade, desesperado, com seus olhos brilhando e temendo que ela pegasse aquele avião com destino ao outro lado do oceano e assim se separassem para sempre.

A cada SOL ela lembrava de cada amanhecer e anoitecer juntos. Da caminhada pela ponte. O último encontro antes de tudo desmoronar friamente como se o tempo e amor fossem em vão.

A cada LÁ sentia uma vontade de arrumar as malas, pegar o primeiro trem e bater na casa dele sem avisar e ver qual seria sua reação e que rumos sua vida tomaria com esse impulso.

A cada SI desejava que o tempo voltasse e que aquela voz dizendo “amo-te” ao telefone, ecoasse novamente e fizesse algumas lágrimas correrem por seus olhos. Sentia aquele aperto no coração por tudo ter virado uma silhueta de lembranças.

E a cada DÓ novamente, a certeza de ter que recomeçar outra música e outra sintonia de ligação com o amor. Todas as músicas tocadas pareciam vazias, mortas, sem tom. Esta havia sido a única canção decorada para sempre.

Andrio Robert Lecheta, 06:45 da manhã 26/07/2014

Ao som de STORM – Lifehouse.

40 Dias

MAPA

Será que suas malas estão prontas? Não esqueceu de colocar aquela camisa  do dia em que nos conhecemos? Confere para ver se a aliança está no bolso. Não precisa vir com ela no dedo não. Temos tempo para colocar toda essa bagunça em ordem.

Hoje você deve ter dado aquela olhada no calendário e o que antes era dolorido, “VER O TEMPO PASSAR” ,agora é motivador de acordar com o sorriso brilhando de lado a lado, de canto a canto do rosto!

Deu play na nossa música. Em italiano, por que sempre fomos de ter uma trilha sonora bem balanceada: francês, espanhol e italiano. Sem clichês americanos de comédia romântica!

Acordou hoje e foi fazer aquela caminhada na Ponte. Era um ritual de despedida. Talvez demoraria algum tempo até vê-la novamente. E eu sei, você sempre teve uma paixão por essas pontes! Deu aquela olhadinha naquelas fotos. Sorriu e foi reler algumas mensagens das tantas que trocamos nos últimos meses.

Nessa noite foi para a casa da vó, deu um beijo bem especial nela. Um pouco saudoso, pois sabia que demoraria vê-la novamente depois que os 40 dias se completassem! Naquele dia lavou a louça e apenas sorriu no canto da mesa, ninguém entendia, mas você estava muito feliz.

Amanheceu e anoiteceu por 40 vezes seguidas, quase uma eternidade.

Eu estava no aeroporto, sentado, secando algumas lágrimas. Eu pensei que você ia aparecer para me dizer adeus! Na minha cabeça passavam-se flashs de uma vida toda que ficava para trás e de uma nova que teria que nascer. Atravessar o oceano era um rito de passagem para um novo horizonte, o horizonte do reencontro com o que deixou-se para trás.

Ouvi a chamada do meu voo! Levantei e fui para a fila e de repente vem lá alguém correndo do fundo daquele corredor gritando meu nome a todo pulmão! E por 15 segundos eu pensei: Não, isso é cena de filme de Sessão da Tarde. Na vida real isso não acontece!

ESPERA!

Na vida real a conexão de nossas almas também não teria chance de ter acontecido e o encanto desde o primeiro olhar também não!

Era verdade! Você estava ali com as malas prontas!

Eu te abracei forte como nunca abraçara ninguém na vida. Dei um suspiro com a alma e apenas tive condições emocionais de dizer:

EU SABIA!

Andrio Robert Lecheta, 10/07/2014, às 08:10 horas.

Ao som de Before It’s Too Late ( Sam and Mikaela’s Theme)