Memórias

 

one direction

 

Entrei naquela sala meio empoeirada. Era dia, mas estava um pouco escuro com a única luz que entrava pela janela. Ali estavam espalhados pelo chão alguns brinquedos, carrinhos e ursinhos. Havia ali uma criança, um pequeno menino.

Sentei-me na única cadeira que havia. Ele vestia uma camisa azul com desenho da Família Dinossauro e um calçãozinho creme. Estava descalço, sozinho, mexendo em seus brinquedos. A televisão antiga estava desligada e o toca discos fazia ruídos como se ali houvesse um vinil sem músicas.

No piso dava para ver os locais por onde aquele menininho passava para brincar. A poeira parecia ser já de semanas passadas.

Ele olhava para a janela fixamente por algumas vezes. Deitava com a cabecinha ao chão e por vezes até dormia algumas horas seguidas. Acordava, olhava para um lado e para o outro. Arriscava um “Papá!”. Sem resposta voltava  a se entreter com seus ursinhos dos quais ainda não tinha coordenação motora suficiente para manipular.

Às vezes chorava, choramingava e ninguém aparecia. Era um completo vazio.

Com seus brinquedos, haviam momentos em que ele soltava enérgicas gargalhadas que meus olhos lacrimejavam de tamanha pureza e essência. Era a fonte do ouro da felicidade. Eu me sentia eterno quando ele fazia isso.

Por momentos ele ficava longos períodos em absoluto silêncio girando uma bolinha com líquido azul e um peixinho dentro. Às vezes fixava o olhar na parede e rapidamente sorria ou então chorava. Balbuciava coisas como se já estivesse acostumado com toda aquela solidão por muito tempo e como se ali estivessem seus outros amiguinhos de sempre.

De repente entra uma mulher ali, com ar cansado e abatido. Chega perto do menino, dá-lhe um beijinho na testa e o chama por meu nome.

Andrio Robert Lecheta 13/07/2014 às 02:14 horas.

Ao som de OPEN YOUR EYES – Snow Patrol

Plié

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Relâmpagos acendiam e se propagavam por aquela sala toda de espelhos. Aquelas barras pareciam amaldiçoadas cheias de pesadelo e corpos esguios e doentes.

Os tons graves dos trovões faziam eco na minha cabeça. Se misturavam com a voz militar daquela professora. Eu só conseguia enxergar sua silhueta movendo-se pela sala toda como um espírito desgovernado, doce, malévolo, diabólico.

“CALCANHARES NO CHÃO, MENINA!”

Gritava como se estivesse adestrando um cão. Apenas eu e ela presas naquele inferno. Todas eram perfeitas! Apenas eu era a indisciplinada que precisava ficar até mais tarde nas aulas.

“TENDU! TENDU! ALINHA ESSE QUADRIL COM O OMBRO OU NÃO SAIREMOS DAQUI!”

Só de pensar nessa possibilidade me embrulhava o estômago e subia-me ânsia de vômito. Estômago vazio que degustou 3 folhas de alface às 11:00 horas da manhã e nada mais. Hoje é dia de minha mãe me pesar, tirar minhas medidas… Ela me mataria se eu não estivesse com os mesmos 42 quilos da semana passada.

“ATTITUDE! ATTITUDE! LEVANTA ESTA COXA, MENINA!”

Eu quero ser livre! Chega! Já estou suando frio. Está tudo girando, me sinto muito fraca e minhas mãos já estão formigando. Ainda chegarei em casa e minha mãe vai querer ver se melhorei o Sissone.

Me sinto escrava da vontade alheia. Estou presa na frustração dos sonhos das pessoas que me cercam!

“CABEÇA! BRAÇOS! PIRUETAS! PIRUETAS! NÃO VEJO ESFORÇO!”

Sua voz parecia chicote em minhas pernas, ombros, quadris e coxas. Esforço? Estou há 5 dias comendo alfaces para manter meu peso. Meus dedos estão em carne viva pelo treino  e quase não sinto meus pés ao caminhar na rua.

Essa barra parece ser a cruz que terei que carregar. Me sinto pregada à ela e à obsessão de minhã mãe me ver sendo o que ela fracassou. O fracasso é hereditário!

Cada trovão meu coração dispara. Cada relâmpago me parecia um flash irônico da vida fotografando minha existência vã e fracassada.

Cinco dias para o espetáculo dos horrores!

“SISSONE EN AVANT! SISSONE EN ARRIÈRE! SISSONE À LA SECOND!!!”

Era a última gota de sangue saindo para voltar ao demi-plié.

Meu corpo desfalece! Não há mais força.

Ao chão um corpo em mais um desmaio cotidiano ocultado pelas paredes espelhadas.

Espero um dia não me levantar mais.

Andrio Robert Lecheta. 11/07/2014 às 09:43 horas.

Ao som de LACRYMOSA  – Evanescence.

Cárcere

PRESO

 

Amanheceu mais um dia.

A insônia me fez companhia mais uma vez. Acho que já somos íntimos. Nos conhecemos tão bem.

Vaguei pela casa, pelos corredores. Abri a geladeira. Como sempre à procura de nada.

Fiz meu chá para curar a angústia da madrugada.

Eu não sei se está quente ou frio lá fora. Só noto que anoitece e amanhece pelas janelas que sempre estão com as cortinas abertas.

Olhos atentos ao celular. Será que hoje vem algum sinal?

NÃO!

Jogo um pouco de água no rosto. Se não dormi até agora, não quero mais.

Me  olho no espelho para ver se estou minimamente apresentável para  se por acaso a campainha tocar, eu poder sorrir e me passar por mais uma pessoa feliz acordando pela manhã ,disposto a fazer uma caminhada na Alameda ou levar o cachorrinho para passear.

Cabelo enrolado  e barba por fazer. Há quanto tempo eu não me via assim?

Nos azulejos brancos da cozinha as marcas dos meus passos indo e vindo o tempo todo numa espécie de espera mórbida.

Fazem 4 dias que eu não saio na rua. Acho que emagreci.

Todo mundo pensa que estou bem e feliz.

Estou sendo um bom ator.

A caneca de chá acabou.

Esse foi o último gole amargo da madrugada.

Andrio Robert Lecheta, 11/07/2014, às 08:09 horas.

Ao som de BROKEN – Lifehouse.

 

40 Dias

MAPA

Será que suas malas estão prontas? Não esqueceu de colocar aquela camisa  do dia em que nos conhecemos? Confere para ver se a aliança está no bolso. Não precisa vir com ela no dedo não. Temos tempo para colocar toda essa bagunça em ordem.

Hoje você deve ter dado aquela olhada no calendário e o que antes era dolorido, “VER O TEMPO PASSAR” ,agora é motivador de acordar com o sorriso brilhando de lado a lado, de canto a canto do rosto!

Deu play na nossa música. Em italiano, por que sempre fomos de ter uma trilha sonora bem balanceada: francês, espanhol e italiano. Sem clichês americanos de comédia romântica!

Acordou hoje e foi fazer aquela caminhada na Ponte. Era um ritual de despedida. Talvez demoraria algum tempo até vê-la novamente. E eu sei, você sempre teve uma paixão por essas pontes! Deu aquela olhadinha naquelas fotos. Sorriu e foi reler algumas mensagens das tantas que trocamos nos últimos meses.

Nessa noite foi para a casa da vó, deu um beijo bem especial nela. Um pouco saudoso, pois sabia que demoraria vê-la novamente depois que os 40 dias se completassem! Naquele dia lavou a louça e apenas sorriu no canto da mesa, ninguém entendia, mas você estava muito feliz.

Amanheceu e anoiteceu por 40 vezes seguidas, quase uma eternidade.

Eu estava no aeroporto, sentado, secando algumas lágrimas. Eu pensei que você ia aparecer para me dizer adeus! Na minha cabeça passavam-se flashs de uma vida toda que ficava para trás e de uma nova que teria que nascer. Atravessar o oceano era um rito de passagem para um novo horizonte, o horizonte do reencontro com o que deixou-se para trás.

Ouvi a chamada do meu voo! Levantei e fui para a fila e de repente vem lá alguém correndo do fundo daquele corredor gritando meu nome a todo pulmão! E por 15 segundos eu pensei: Não, isso é cena de filme de Sessão da Tarde. Na vida real isso não acontece!

ESPERA!

Na vida real a conexão de nossas almas também não teria chance de ter acontecido e o encanto desde o primeiro olhar também não!

Era verdade! Você estava ali com as malas prontas!

Eu te abracei forte como nunca abraçara ninguém na vida. Dei um suspiro com a alma e apenas tive condições emocionais de dizer:

EU SABIA!

Andrio Robert Lecheta, 10/07/2014, às 08:10 horas.

Ao som de Before It’s Too Late ( Sam and Mikaela’s Theme)

 

La sangre

 

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Expulsar o que me fazia mal era tentar cortar pedaços de mim mesmo!

Eu estava ali caído, gélido, mesclado entre solidão e desprezo. Minha alma havia se levantado e sentado ao lado de meu cadáver. Me observava atenciosamente, uma lágrima escorria dela quando eu sentia alguma dor ou a asfixia tentava me deixar desacordado.

Expulsar o que me fazia mal era tentar arrancar algum órgão!

Era um estado anestésico, nostálgico. Naquele momento me veio a cabeça em fração de segundos a imagem de todos os meus familiares, amigos, pessoas que passaram pela minha vida na escola, faculdade. Senti um cheiro, um cheiro de vida, um cheiro bom de café sendo feito logo pela manhã. Senti uma brisa no rosto como se alguém tivesse aberto a janela do céu. Era minha alma que beijara meu corpo ali caído.

Expulsar o que me fazia mal era tentar arrancar a vida!

Eu tinha a impressão que me levantaria a qualquer momento dali. Luzes passavam em meus olhos o tempo todo. Parecia que aquela sala abandonada estava cheia. Na minha boca veio o gosto de todos os beijos que dei. Minha alma ganhara ao meu lado mil faces. Desde aquelas que eu via passar rápido pela rua até aquelas que fizeram parte de meses da minha história.

Expulsar o que me fazia mal era tentar não viver!

Uma espécie de sufoco sob muita pressão no meu peito que estava aberto. Um piscar de olhos rápido com sensação de 5 segundos, mas ao abrir dos olhos notei que ninguém havia me encontrado. Minha alma repousava na cadeira ao lado com seus cabelos brancos e barba já grande. Parecia evidente o seu sofrimento preso ao meu corpo. Alguns bichos corriam pelas minhas pernas , braços, era finalmente o começo do fim.

Expulsar o que me fazia mal era enterrar-me vivo!

Então notando que ninguém apareceria, ninguém me encontraria e que isso já fazia com que ela mesma se sentisse à beira da morte,  mesmo sendo imortal, ela tomou os restos do meu corpo em seu colo. Sem pensar duas vezes juntou meus braços que já não estavam mais presos ao tronco, pegou uma das mãos que estava embaixo de um pedaço de madeira e me levou para fora.

Expulsar o que me fazia mal  era tirar-me de mim mesmo!

Começava ali uma tempestade. Era uma chuva que levou até um pouco de alguns órgãos dissecados dentro de mim, o restante de meu cabelo e até alguns dentes. Vi tudo escorrendo para baixo. Enquanto isso minha alma cavava um imenso buraco. Ao terminar juntou todo o meu corpo que se desfez ao estar exposto à chuva e me jogou ali dentro…

Tudo foi ficando escuro, eu sentia o peso da terra sobre mim. Não havia mais luz!

ABRO MEUS OLHOS. Vejo uma luz tomando minha alma. Ela se rejuvenesceu em milésimos de segundos. Eu respirei profundamente pela última vez. E não vi mais nada depois disso.

Expulsar o que me fazia mal era tirar todo o sangue da minha existência!

 

 

Andrio Robert Lecheta 09/07/2014 às 22:51 horas.

Ao som de Lithium – Evanescence.

 

A Poética Morte

 

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Abraça-me forte! Sua beleza me dá fôlego à vida. Quem seria eu sem ti?

Seu cabelos longos, sua leveza enquanto dança me atrai cegamente para os seus braços.

Me beije! Me leve junto contigo, me desvende teus mistérios. Carregue o meu luar e me deixe o teu perfume.

Há quem se assuste quando eu digo que somos os melhores amigos e que caminhamos juntos.

Seu poder, sua presença me fascina e somos tão parecidos como reflexo no espelho!

Você me atrai e ao mesmo tempo me faz querer estar longe de ti. E é assim que o mundo reage à minha e à sua presença.

Segura-me forte! Sinto-me vivo contigo! Sinto-me pulsante! Sou livre de corpo, alma, mente. Eu apenas sou, existo e basto! Meu coração bate num ritmo que nunca bateu antes. Respiro como se o ar fosse raro!

Como você está bela com este vestido negro de seda. Seus lábios me encantam, por um segundo penso em te beijar, mas isso seria irreversível. Deixo apenas meus olhos se fixarem a cada passo seu a minha volta. É uma hipnose, um transe, um ir além…

Por que eles tem medo de ti? Só por que você não avisa ninguém quando fará alguma visita? As pessoas deveriam gostar de surpresas agradáveis como a sua.

Esta noite você está tão bela que chego a acreditar que veio para ficar, para tomar um chá e falarmos de como a vida é injusta.  Talvez trocarmos alguns desabafos, algumas lágrimas e depois você volta para sua casa sozinha descansar um pouco! E eu também troco sua companhia por alguma outra sensação que esteja vagando pelas ruas perdida. Tão perdida quanto eu me sinto todas as vezes que você vira as costas e sai sem rumo, sem me deixar falar mais do meu apreço por sua companhia.

Quando puder volte, temos que dançar mais um pouco,temos que esquecer esse peso de viver e tentar morrer um pouco.

 

Andrio Robert Lecheta , 09/07/2014, às 20:39 horas

Ao som de TAKE ME WAY ( Lifehouse)

 

 

Clichês

 

 

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Não espere que nessas linhas você vá ler aquelas coisas todas que as pessoas dizem quando terminam relações. Por aqui você não vai me ver dizendo que meu coração aperta de saudade e que sua lembrança é presente em mim a todos os momentos. Muito menos vai ler por aqui que meu coração dispara quando vejo alguém parecido com você na rua e preciso ir bem perto para ter certeza que não é você. Eu jamais te contaria por aqui que, as vezes, quando encontro essas pessoas com traços físicos iguais ao seus, eu fico ali olhando e pensando em como seria minha reação se realmente fosse você. Até me dá vontade de ir até lá pedir um abraço para ver se amenizava alguma coisa aqui dentro.

Que nem passe pela sua cabeça que eu usaria este texto para dizer que foi difícil quando abri minha mala e suas roupas estavam lá, que seu cheiro ficou nas minhas cobertas, roupas, no meu corpo, nas paredes, no corredor e na sala da minha casa. Eu não teria coragem de te confessar aqui que o seu pijama, aquele que você me deu para eu me sentir aquecido e confortável aquele dia, estava na minha mala escondido. Agora está na minha gaveta e talvez no próximo inverno eu o use, mesmo sabendo que será extremamente doloroso, que minha cabeça entrará em parafuso com tantas lembranças e que meu travesseiro ficará alagado com minhas lágrimas seguidas por soluço.

Não espere que nessas linhas eu teria coragem de dizer que a nossa aliança está na gaveta, que ela ainda faz falta no meu dedo. Nem que um dia senti vontade de sair de casa com ela, pois mesmo quando estávamos juntos ela nunca representou uma prisão, mas a pura liberdade para a nossa felicidade.

Que nem passe pela sua cabeça que nesse texto eu falarei que ainda imagino nossos filhos crescendo na nossa casa e brincando na rua com os filhos dos vizinhos e aquele clima de família habitaria em nosso lar.

Eu jamais teria coragem de te contar por aqui que metade da minha solidão tem nome, sobrenome e um abraço seria capaz de acalentar meu coração. Que me senti desprotegido quando não tinha mais a sua voz para dizer que amanhã as coisas ficariam bem. Que tenho saudades daqueles olhos brilhando para mim, uma luz própria que me conectava a um outro nível de existência, me levava ao nirvana ou a qualquer lugar espiritual que eu ainda não tinha tocado antes.

Nem cogite possibilidade de que lerá por aqui que as vezes desço na rua da frente do meu prédio para ter certeza que você não está ali esperando eu abrir a porta.

A única coisa que você pode esperar que eu teria coragem de dizer neste texto é que a mágoa dói todos os dias desde a hora em que abro os olhos até a hora de fechar novamente. Que me acho ridículo por sofrer deste jeito por algo que eu sempre acreditei que saberia viver bem sem. Mas eu pararia por aí, não falaria que as vezes também me pego com sorrisos bobos lembrando suas caras e suas brincadeiras idiotas. E nem que fecho os olhos para tentar buscar nas minhas memórias você cantando para mim.

Eu jamais diria que tive que parar diversas vezes enquanto escrevia esse texto para secar as lágrimas,acalmar o coração que disparava quando a recordação era muito viva e que não foi fácil chegar até aqui.

Desculpe, eu sei que você esperava ler por aqui que eu ainda te amo como antes e que isso é vivo em mim como fogo que consome e alimenta a existência , dá direção ao caminho e à vida. Eu não teria coragem de escrever que espero a sua volta.

Desculpe.

Andrio Robert Lecheta, 09/07/2014, às 20:08 horas

Ao som de By Your Side ( LIfehouse)