Partitura

piano

Todos os dias em que a saudade tocava solos de violino, ela subia as escadas até uma espécie de sótão. Abria a porta e lá estava o seu piano, parte de sua essência, instrumento que fazia transcender, levitar e iluminava suas escuridões.

Antes ele vivia empoeirado, quando o amor substituía o bem estar que antes só a música trazia à sua vida. Mas agora o que restou foram as notas da saudade. Uma partitura de alegria e solidão.

Em cada nota experimentava um sentimento que quase a sufocava de tão intenso. A música era sempre a mesma, mas cada acorde era um lugar diferente visitado num recente passado feliz.

A cada DÓ sentia o toque dos dedos dele sobre sua pele, fazendo com que se arrepiasse e seu coração disparasse no ritmo do galope de um cavalo no deserto em busca de água.

A cada RÉ sentia o gosto de seu beijo macio, adocicado e, às vezes, ácido quando era hora da despedida. Foi o gosto do último beijo dado sabendo que seria o último.

A cada MI sentia o cheiro de seu perfume impregnado em suas narinas como aroma vital para sua sobrevivência. Seu corpo esquentava, pois sentir aquele cheiro a transportava para o lado dele.

A cada FÁ sentia seu abraço de saudade, desesperado, com seus olhos brilhando e temendo que ela pegasse aquele avião com destino ao outro lado do oceano e assim se separassem para sempre.

A cada SOL ela lembrava de cada amanhecer e anoitecer juntos. Da caminhada pela ponte. O último encontro antes de tudo desmoronar friamente como se o tempo e amor fossem em vão.

A cada LÁ sentia uma vontade de arrumar as malas, pegar o primeiro trem e bater na casa dele sem avisar e ver qual seria sua reação e que rumos sua vida tomaria com esse impulso.

A cada SI desejava que o tempo voltasse e que aquela voz dizendo “amo-te” ao telefone, ecoasse novamente e fizesse algumas lágrimas correrem por seus olhos. Sentia aquele aperto no coração por tudo ter virado uma silhueta de lembranças.

E a cada DÓ novamente, a certeza de ter que recomeçar outra música e outra sintonia de ligação com o amor. Todas as músicas tocadas pareciam vazias, mortas, sem tom. Esta havia sido a única canção decorada para sempre.

Andrio Robert Lecheta, 06:45 da manhã 26/07/2014

Ao som de STORM – Lifehouse.

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Daydreaming

 

amorte

 

Esses dias atrás resolvi me deitar e dormir um pouco durante o dia. Fazia muito calor lá fora. Eu me sentia com febre. Adormeci rápido e tive um sonho terrível com você.

Sonhei que tudo tinha acabado, que os sonhos tinham sido frustrados e que eu não poderia nunca mais olhar em seus olhos. Eu havia perdido meu paraíso!

No sonho a tua voz havia perdido a doçura e você não se arrepiava ao meu toque.Você já não tinha o zelo de sempre comigo.

Sonhei que havíamos nos perdido e nos machucado. Que havíamos aberto feridas profundas onde nossa alma ainda estava sã em outros tempos. Eu sonhei que estávamos separados e sangrando. Você já não cantava pra mim, havia ido buscar outros olhos, bocas e corpos. E que nossos dois filhos, Pedro e Gonçalo, ficaram nos planos fracassados de um passado que ardia por querer ser futuro.

Foi um pesadelo. Você havia descoberto que  não valia mais a pena a saudade, a distância e a espera.

Meu céu havia ficado sem brilho e a única graça que havia depois da chuva, O ARCO-ÍRIS,  agora já não aparecia mais.

Sonhei que cada um ficou num canto ouvindo as músicas que lembravam nossa história e que ambos permaneciam em silêncio. As alianças foram parar na gaveta embaixo das roupas para não serem encontradas.

Cheguei a sonhar que passei por aquela estação de metrô. SIM! Aquela mesma: a estação Parque, onde pela primeira vez eu encontrei o aconchego dos teus braços deitando no seu ombro sem saber que seria eterno pra mim. Senti falta de nós.

Também neste sonho eu saía na tentativa de encontrar alguém que te substituísse, que fizesse eu te esquecer, mas eu não encontrava. Sonhei que eu chorava a cada pessoa que se apaixonava por mim e eu me sentia vazio sem sentir nada por esta pessoa.

Até sonhei que pelas ruas de Paris ou de Madrid eu encontrava pessoas parecidas com você e então eu ficava um pouco em silêncio, secava algumas insistentes lágrimas e voltava pra casa.

Lembro que no sonho quando eu saía de algum bar ou discoteca eu sentia apertos no meu peito como nunca havia sentido na vida, que isso pressionava meus olhos e eu chorava de imensa saudade sua. Sem você se importar e mesmo depois de ter dito que não suportava mais meus choros ao telefone. ( A PARTE MAIS DURA DO SONHO, POR SINAL).

Sonhei que isso já durava 4 meses: sem sms, sem beijo, sem abraço, sem encontros, sem espera..

Apenas solidão!

Sonhei que você tinha quebrado todas as promessas que fez. E que no fim do sonho eu escrevia um texto em um blog qualquer, na esperança de algum dia te mostrar ou na esperança de que você estivesse lendo.

Então, de repente, eu acordei e tive que me dar conta que nada tinha sido um sonho e que isso tudo era a mais pura realidade que me acompanhava desde o seu último silêncio.

Andrio Robert Lecheta às 20:18 horas 18/07/2014

Ao som de Daydreaming – Paramore.

Nasce a Vida

vida

 

E então ela descobre que carregava dentro de si: Vida. Ela carrega mais VIDA!

Muito mais Vida do que imaginava.

A partir dali brotara dentro de si mais sentido e significado à existência.

Nesse momento e nos meses que se seguiram ela exalava V-I-D-A.

A Vida corria por suas veias, passava por seus pulmões e acalentava os dois corações que agora habitavam um só corpo.

Era vida que brotava e escorria dos olhos desde a primeira batida daquele pequeno coração. Aquele pedacinho de VIDA.

Em frente ao espelho , nua, observava em si que nada mais era como antes. Tudo estava cheio de VIDA. Com as mãos na barriga sentia o universo acontecendo dentro de si. Um BIG BANG de emoções coloridas com flores rosas e lilás.

Em todas as curvas do seu corpo havia essência de vida: em seu peito se preparando para amamentar, em seu quadril que agora estava maior e até em seus pés inchados. Até a dor era sinal que ali existia VIDA. Vida que pulsava como nunca.

E ali a Vida corria tão INTENSAMENTE que certo dia de seu peito veio um pouco de leite. Parecia magia! Havia deitado mulher e despertado mãe. Não que antes ela assim não se sentisse, mas agora seu corpo reagia ainda mais à tanta Vida.

Esperança no amanhã, a calma após o pesadelo, um pedido de paz e equilíbrio ao mundo: cada criança ,em cada ventre, traz consigo uma mensagem incontestável de amor  à vida. O milagre da multiplicação ( celular) estava acontecendo dentro dela.

Os raios de Sol em seu rosto agora eram os beijos de Deus e a brisa leve ao caminhar numa manhã de inverno: o sopro da VIDA.

Tanta Vida que a sensação era que ela era o universo. E cá entre nós: nesse momento ela é um universo. Um universo que transborda VIDA!

Andrio Robert Lecheta às 02:50 horas. 16/07/2014.

Ao som de Slow it Down e Stubborn Love – The Lumineers

(Uma homenagem à minha amiga/comadre PRISCILA , grávida da minha linda e primeira afilhada Helo!O anjo que vai trazer mais vida às nossas vidas!)

Memórias

 

one direction

 

Entrei naquela sala meio empoeirada. Era dia, mas estava um pouco escuro com a única luz que entrava pela janela. Ali estavam espalhados pelo chão alguns brinquedos, carrinhos e ursinhos. Havia ali uma criança, um pequeno menino.

Sentei-me na única cadeira que havia. Ele vestia uma camisa azul com desenho da Família Dinossauro e um calçãozinho creme. Estava descalço, sozinho, mexendo em seus brinquedos. A televisão antiga estava desligada e o toca discos fazia ruídos como se ali houvesse um vinil sem músicas.

No piso dava para ver os locais por onde aquele menininho passava para brincar. A poeira parecia ser já de semanas passadas.

Ele olhava para a janela fixamente por algumas vezes. Deitava com a cabecinha ao chão e por vezes até dormia algumas horas seguidas. Acordava, olhava para um lado e para o outro. Arriscava um “Papá!”. Sem resposta voltava  a se entreter com seus ursinhos dos quais ainda não tinha coordenação motora suficiente para manipular.

Às vezes chorava, choramingava e ninguém aparecia. Era um completo vazio.

Com seus brinquedos, haviam momentos em que ele soltava enérgicas gargalhadas que meus olhos lacrimejavam de tamanha pureza e essência. Era a fonte do ouro da felicidade. Eu me sentia eterno quando ele fazia isso.

Por momentos ele ficava longos períodos em absoluto silêncio girando uma bolinha com líquido azul e um peixinho dentro. Às vezes fixava o olhar na parede e rapidamente sorria ou então chorava. Balbuciava coisas como se já estivesse acostumado com toda aquela solidão por muito tempo e como se ali estivessem seus outros amiguinhos de sempre.

De repente entra uma mulher ali, com ar cansado e abatido. Chega perto do menino, dá-lhe um beijinho na testa e o chama por meu nome.

Andrio Robert Lecheta 13/07/2014 às 02:14 horas.

Ao som de OPEN YOUR EYES – Snow Patrol

40 Dias

MAPA

Será que suas malas estão prontas? Não esqueceu de colocar aquela camisa  do dia em que nos conhecemos? Confere para ver se a aliança está no bolso. Não precisa vir com ela no dedo não. Temos tempo para colocar toda essa bagunça em ordem.

Hoje você deve ter dado aquela olhada no calendário e o que antes era dolorido, “VER O TEMPO PASSAR” ,agora é motivador de acordar com o sorriso brilhando de lado a lado, de canto a canto do rosto!

Deu play na nossa música. Em italiano, por que sempre fomos de ter uma trilha sonora bem balanceada: francês, espanhol e italiano. Sem clichês americanos de comédia romântica!

Acordou hoje e foi fazer aquela caminhada na Ponte. Era um ritual de despedida. Talvez demoraria algum tempo até vê-la novamente. E eu sei, você sempre teve uma paixão por essas pontes! Deu aquela olhadinha naquelas fotos. Sorriu e foi reler algumas mensagens das tantas que trocamos nos últimos meses.

Nessa noite foi para a casa da vó, deu um beijo bem especial nela. Um pouco saudoso, pois sabia que demoraria vê-la novamente depois que os 40 dias se completassem! Naquele dia lavou a louça e apenas sorriu no canto da mesa, ninguém entendia, mas você estava muito feliz.

Amanheceu e anoiteceu por 40 vezes seguidas, quase uma eternidade.

Eu estava no aeroporto, sentado, secando algumas lágrimas. Eu pensei que você ia aparecer para me dizer adeus! Na minha cabeça passavam-se flashs de uma vida toda que ficava para trás e de uma nova que teria que nascer. Atravessar o oceano era um rito de passagem para um novo horizonte, o horizonte do reencontro com o que deixou-se para trás.

Ouvi a chamada do meu voo! Levantei e fui para a fila e de repente vem lá alguém correndo do fundo daquele corredor gritando meu nome a todo pulmão! E por 15 segundos eu pensei: Não, isso é cena de filme de Sessão da Tarde. Na vida real isso não acontece!

ESPERA!

Na vida real a conexão de nossas almas também não teria chance de ter acontecido e o encanto desde o primeiro olhar também não!

Era verdade! Você estava ali com as malas prontas!

Eu te abracei forte como nunca abraçara ninguém na vida. Dei um suspiro com a alma e apenas tive condições emocionais de dizer:

EU SABIA!

Andrio Robert Lecheta, 10/07/2014, às 08:10 horas.

Ao som de Before It’s Too Late ( Sam and Mikaela’s Theme)

 

Clichês

 

 

tumblr.

 

Não espere que nessas linhas você vá ler aquelas coisas todas que as pessoas dizem quando terminam relações. Por aqui você não vai me ver dizendo que meu coração aperta de saudade e que sua lembrança é presente em mim a todos os momentos. Muito menos vai ler por aqui que meu coração dispara quando vejo alguém parecido com você na rua e preciso ir bem perto para ter certeza que não é você. Eu jamais te contaria por aqui que, as vezes, quando encontro essas pessoas com traços físicos iguais ao seus, eu fico ali olhando e pensando em como seria minha reação se realmente fosse você. Até me dá vontade de ir até lá pedir um abraço para ver se amenizava alguma coisa aqui dentro.

Que nem passe pela sua cabeça que eu usaria este texto para dizer que foi difícil quando abri minha mala e suas roupas estavam lá, que seu cheiro ficou nas minhas cobertas, roupas, no meu corpo, nas paredes, no corredor e na sala da minha casa. Eu não teria coragem de te confessar aqui que o seu pijama, aquele que você me deu para eu me sentir aquecido e confortável aquele dia, estava na minha mala escondido. Agora está na minha gaveta e talvez no próximo inverno eu o use, mesmo sabendo que será extremamente doloroso, que minha cabeça entrará em parafuso com tantas lembranças e que meu travesseiro ficará alagado com minhas lágrimas seguidas por soluço.

Não espere que nessas linhas eu teria coragem de dizer que a nossa aliança está na gaveta, que ela ainda faz falta no meu dedo. Nem que um dia senti vontade de sair de casa com ela, pois mesmo quando estávamos juntos ela nunca representou uma prisão, mas a pura liberdade para a nossa felicidade.

Que nem passe pela sua cabeça que nesse texto eu falarei que ainda imagino nossos filhos crescendo na nossa casa e brincando na rua com os filhos dos vizinhos e aquele clima de família habitaria em nosso lar.

Eu jamais teria coragem de te contar por aqui que metade da minha solidão tem nome, sobrenome e um abraço seria capaz de acalentar meu coração. Que me senti desprotegido quando não tinha mais a sua voz para dizer que amanhã as coisas ficariam bem. Que tenho saudades daqueles olhos brilhando para mim, uma luz própria que me conectava a um outro nível de existência, me levava ao nirvana ou a qualquer lugar espiritual que eu ainda não tinha tocado antes.

Nem cogite possibilidade de que lerá por aqui que as vezes desço na rua da frente do meu prédio para ter certeza que você não está ali esperando eu abrir a porta.

A única coisa que você pode esperar que eu teria coragem de dizer neste texto é que a mágoa dói todos os dias desde a hora em que abro os olhos até a hora de fechar novamente. Que me acho ridículo por sofrer deste jeito por algo que eu sempre acreditei que saberia viver bem sem. Mas eu pararia por aí, não falaria que as vezes também me pego com sorrisos bobos lembrando suas caras e suas brincadeiras idiotas. E nem que fecho os olhos para tentar buscar nas minhas memórias você cantando para mim.

Eu jamais diria que tive que parar diversas vezes enquanto escrevia esse texto para secar as lágrimas,acalmar o coração que disparava quando a recordação era muito viva e que não foi fácil chegar até aqui.

Desculpe, eu sei que você esperava ler por aqui que eu ainda te amo como antes e que isso é vivo em mim como fogo que consome e alimenta a existência , dá direção ao caminho e à vida. Eu não teria coragem de escrever que espero a sua volta.

Desculpe.

Andrio Robert Lecheta, 09/07/2014, às 20:08 horas

Ao som de By Your Side ( LIfehouse)