Um estudo sobre cadáveres

andro

 

Relatório de observação

Acordei com o coração acelerado, corri e não sabia onde estava. Lá fora haviam seres estranhos, pálidos, calados, andando fixamente de um lado para o outro.

Eram frios e pareciam não notar a existência dos outros de sua espécie.

Tinham costumes absurdamente esquisitos. Alguns trancavam-se em construções, se isolavam e de seus olhos corriam líquidos. Parecia uma água salgada e pelo que pesquisei era um modo de defesa do organismo da espécie.

Outros se trancavam em locais com sons ensurdecedores, eletrônicos, com vozes de sua espécie ao fundo.Tinham um hábito estranho de se aproximarem,  unirem as bocas e girarem suas cabeças para um lado e para o outro ao mesmo tempo que as mãos percorriam o corpo todo do outro. Repetiam esse ritual várias vezes, com vários de sua espécie neste mesmo local em pouquíssimo tempo. Até em fração de segundos. Alguns depois iam para um outro espaço onde retiravam os panos de seus corpos e friccionavam suas genitálias uma contra a outra constantemente por alguns minutos, logo após isso trocavam de parceria repetidamente e até no mesmo período noturno. Alguns faziam esse ritual pelas ruas ou em locais onde haviam mais dessa espécie co-habitando. Todos achavam aquilo naturalmente aceitável ao habitat.

Nesse local era comercializado um líquido de variados tipos e após uma quantidade ingerida a espécie perdia o controle motor sobre seu corpo. Colhi amostras para análise. Pelas ruas e cantos escuros, parte da espécie consumia um tipo de pó que enfileiravam sobre algo plano e inalavam para uma experiência sensorial que afetava seu organismo e causava dependência.

Uma grande parte desta espécie recorria à construções com ferragens e equipamentos para exercícios repetitivos. Alegavam que com isso compensavam os malefícios causados em seu corpo pela alimentação, muitas vezes ,considerada inadequada. O que os movia era uma espécie de culpa e padrão da espécie. Vários também tinham o costume de mutilar seus corpos. Aplicavam bolas gelatinosas em seus troncos, removiam ossos da região torácica, aplicavam substâncias injetáveis em sua face, eliminavam gorduras do corpo através de métodos cirúrgicos. Tudo isso para se sentirem inseridos no meio onde viviam.

Parte considerável da espécie se dividia em ficar sentado em frente à duas caixas de transmissão de dados/informações. Uma delas possuía programação permanente apresentando dados sobre a realidade, manipulação da realidade e simulação da realidade através de movimentação de imagens e som.Muitos se demonstravam insatisfeitos , mas não optavam pelo desligamento do mesmo.

A outra caixa de transmissão poderia ser acessada, manipulada e programada pelo usuário. O mesmo usava para reclamações de sua existência, armazenamento de dados, áudios, arquivos de imagem e etc. Também passavam horas vendo informações sobre vários temas num espaço de compartilhamento de informação de nível mundial , geralmente os  temas vistos eram  os mais desinteressantes e sem possibilidade de desenvolvimento intelectual após uso do mesmo em grande parte dos casos analisados.

De período em período eram obrigados a ir até uma máquina com botões numerais e com o resultado dessa movimentação um novo líder era escolhido para representá-los, mas os mesmos nunca se sentiram desta forma. Estes líderes provocavam ataques contra outros líderes e assim se iniciava um conflito onde a própria espécie se auto-flagelava e era o maior perseguidor de si mesmo. As subdivisões da espécie faziam com que o choque entre ambas causasse mortes em massa e que tudo isso fosse acompanhado pelas duas caixas de transmissão já citadas acima por todos e em todo o mundo.

Ficavam também trancados em construções por no mínimo 8 horas por dia ( podendo chegar até à 14 horas) e ao fim de um determinado período recebiam cédulas com determinados valores para com isso conseguirem adquirir coisas que declaravam como VITAIS.

Muitas outras coisas aconteciam fora dessas construções, longe das caixas de transmissões e sem a necessidade destas cédulas com valores, mas boa parte da espécie relatou não possuir disponibilidade para outras atividades.

Devido à existência mórbida, encontrei um nome para esta espécie que estou estudando: cadáveres.

Andrio Robert Lecheta, às 06:25 dia 23/07/2014

 

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