Plié

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Relâmpagos acendiam e se propagavam por aquela sala toda de espelhos. Aquelas barras pareciam amaldiçoadas cheias de pesadelo e corpos esguios e doentes.

Os tons graves dos trovões faziam eco na minha cabeça. Se misturavam com a voz militar daquela professora. Eu só conseguia enxergar sua silhueta movendo-se pela sala toda como um espírito desgovernado, doce, malévolo, diabólico.

“CALCANHARES NO CHÃO, MENINA!”

Gritava como se estivesse adestrando um cão. Apenas eu e ela presas naquele inferno. Todas eram perfeitas! Apenas eu era a indisciplinada que precisava ficar até mais tarde nas aulas.

“TENDU! TENDU! ALINHA ESSE QUADRIL COM O OMBRO OU NÃO SAIREMOS DAQUI!”

Só de pensar nessa possibilidade me embrulhava o estômago e subia-me ânsia de vômito. Estômago vazio que degustou 3 folhas de alface às 11:00 horas da manhã e nada mais. Hoje é dia de minha mãe me pesar, tirar minhas medidas… Ela me mataria se eu não estivesse com os mesmos 42 quilos da semana passada.

“ATTITUDE! ATTITUDE! LEVANTA ESTA COXA, MENINA!”

Eu quero ser livre! Chega! Já estou suando frio. Está tudo girando, me sinto muito fraca e minhas mãos já estão formigando. Ainda chegarei em casa e minha mãe vai querer ver se melhorei o Sissone.

Me sinto escrava da vontade alheia. Estou presa na frustração dos sonhos das pessoas que me cercam!

“CABEÇA! BRAÇOS! PIRUETAS! PIRUETAS! NÃO VEJO ESFORÇO!”

Sua voz parecia chicote em minhas pernas, ombros, quadris e coxas. Esforço? Estou há 5 dias comendo alfaces para manter meu peso. Meus dedos estão em carne viva pelo treino  e quase não sinto meus pés ao caminhar na rua.

Essa barra parece ser a cruz que terei que carregar. Me sinto pregada à ela e à obsessão de minhã mãe me ver sendo o que ela fracassou. O fracasso é hereditário!

Cada trovão meu coração dispara. Cada relâmpago me parecia um flash irônico da vida fotografando minha existência vã e fracassada.

Cinco dias para o espetáculo dos horrores!

“SISSONE EN AVANT! SISSONE EN ARRIÈRE! SISSONE À LA SECOND!!!”

Era a última gota de sangue saindo para voltar ao demi-plié.

Meu corpo desfalece! Não há mais força.

Ao chão um corpo em mais um desmaio cotidiano ocultado pelas paredes espelhadas.

Espero um dia não me levantar mais.

Andrio Robert Lecheta. 11/07/2014 às 09:43 horas.

Ao som de LACRYMOSA  – Evanescence.

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