Um estudo sobre cadáveres

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Relatório de observação

Acordei com o coração acelerado, corri e não sabia onde estava. Lá fora haviam seres estranhos, pálidos, calados, andando fixamente de um lado para o outro.

Eram frios e pareciam não notar a existência dos outros de sua espécie.

Tinham costumes absurdamente esquisitos. Alguns trancavam-se em construções, se isolavam e de seus olhos corriam líquidos. Parecia uma água salgada e pelo que pesquisei era um modo de defesa do organismo da espécie.

Outros se trancavam em locais com sons ensurdecedores, eletrônicos, com vozes de sua espécie ao fundo.Tinham um hábito estranho de se aproximarem,  unirem as bocas e girarem suas cabeças para um lado e para o outro ao mesmo tempo que as mãos percorriam o corpo todo do outro. Repetiam esse ritual várias vezes, com vários de sua espécie neste mesmo local em pouquíssimo tempo. Até em fração de segundos. Alguns depois iam para um outro espaço onde retiravam os panos de seus corpos e friccionavam suas genitálias uma contra a outra constantemente por alguns minutos, logo após isso trocavam de parceria repetidamente e até no mesmo período noturno. Alguns faziam esse ritual pelas ruas ou em locais onde haviam mais dessa espécie co-habitando. Todos achavam aquilo naturalmente aceitável ao habitat.

Nesse local era comercializado um líquido de variados tipos e após uma quantidade ingerida a espécie perdia o controle motor sobre seu corpo. Colhi amostras para análise. Pelas ruas e cantos escuros, parte da espécie consumia um tipo de pó que enfileiravam sobre algo plano e inalavam para uma experiência sensorial que afetava seu organismo e causava dependência.

Uma grande parte desta espécie recorria à construções com ferragens e equipamentos para exercícios repetitivos. Alegavam que com isso compensavam os malefícios causados em seu corpo pela alimentação, muitas vezes ,considerada inadequada. O que os movia era uma espécie de culpa e padrão da espécie. Vários também tinham o costume de mutilar seus corpos. Aplicavam bolas gelatinosas em seus troncos, removiam ossos da região torácica, aplicavam substâncias injetáveis em sua face, eliminavam gorduras do corpo através de métodos cirúrgicos. Tudo isso para se sentirem inseridos no meio onde viviam.

Parte considerável da espécie se dividia em ficar sentado em frente à duas caixas de transmissão de dados/informações. Uma delas possuía programação permanente apresentando dados sobre a realidade, manipulação da realidade e simulação da realidade através de movimentação de imagens e som.Muitos se demonstravam insatisfeitos , mas não optavam pelo desligamento do mesmo.

A outra caixa de transmissão poderia ser acessada, manipulada e programada pelo usuário. O mesmo usava para reclamações de sua existência, armazenamento de dados, áudios, arquivos de imagem e etc. Também passavam horas vendo informações sobre vários temas num espaço de compartilhamento de informação de nível mundial , geralmente os  temas vistos eram  os mais desinteressantes e sem possibilidade de desenvolvimento intelectual após uso do mesmo em grande parte dos casos analisados.

De período em período a espécie era obrigada a ir até uma máquina com botões numerais e com o resultado dessa movimentação um novo líder era escolhido para representá-los, mas os mesmos nunca se sentiram desta forma. Estes líderes provocavam ataques contra outros líderes da mesma espécie e assim se iniciava um conflito onde a própria espécie se auto-flagelava e era o maior perseguidor de si mesmo. As subdivisões da espécie faziam com que o choque entre ambas causasse mortes em massa e que tudo isso fosse acompanhado pelas duas caixas de transmissão já citadas acima.

Ficavam também trancados em construções por no mínimo 8 horas por dia ( podendo chegar até à 14 horas) e ao fim de um determinado período recebiam cédulas com determinados valores para com isso conseguirem adquirir coisas que declaravam como VITAIS.

Muitas outras coisas aconteciam fora dessas construções, longe das caixas de transmissões e sem a necessidade destas cédulas com valores, mas boa parte da espécie relatou não possuir disponibilidade para outras atividades.

Devido à existência mórbida, encontrei um nome para esta espécie que estou estudando: cadáveres.

Andrio Robert Lecheta, às 06:25 dia 23/07/2014

 

Aridez

DESERTO 2

 

Sou a chuva que cai e ninguém celebra

O Sol que nasce e se põe sem aplausos

Um detalhe despercebido, um grão de areia a mais na praia

Sou a terra seca

A árvore morta

O vazio.

Sou o vento que sopra e ninguém sente

A geada que surge e ninguém vê

Uma gota de orvalho, uma borboleta seca

Sou chão árido

Casebre abandonado

A inércia.

Sou o dia que passa e ninguém lembra

A flor que morre e ninguém lamenta

Uma brisa no furacão, uma pedrinha do lago

Sou ninho vazio

Pé de rosa sem flor

O invisível.

Sou o oásis ácido na seca do nordeste

Um sonho esquecido na manhã seguinte

Óculos para cego, música para surdo

Sou neve no Alaska

Fruta podre no pé

O deserto.

 

Andrio Robert Lecheta às 4:33 da manhã, 23/07/2014

Ao som de Paramore – Misguided Ghosts

Daydreaming

 

amorte

 

Esses dias atrás resolvi me deitar e dormir um pouco durante o dia. Fazia muito calor lá fora. Eu me sentia com febre. Adormeci rápido e tive um sonho terrível com você.

Sonhei que tudo tinha acabado, que os sonhos tinham sido frustrados e que eu não poderia nunca mais olhar em seus olhos. Eu havia perdido meu paraíso!

No sonho a tua voz havia perdido a doçura e você não se arrepiava ao meu toque.Você já não tinha o zelo de sempre comigo.

Sonhei que havíamos nos perdido e nos machucado. Que havíamos aberto feridas profundas onde nossa alma ainda estava sã em outros tempos. Eu sonhei que estávamos separados e sangrando. Você já não cantava pra mim, havia ido buscar outros olhos, bocas e corpos. E que nossos dois filhos, Pedro e Gonçalo, ficaram nos planos fracassados de um passado que ardia por querer ser futuro.

Foi um pesadelo. Você havia descoberto que  não valia mais a pena a saudade, a distância e a espera.

Meu céu havia ficado sem brilho e a única graça que havia depois da chuva, O ARCO-ÍRIS,  agora já não aparecia mais.

Sonhei que cada um ficou num canto ouvindo as músicas que lembravam nossa história e que ambos permaneciam em silêncio. As alianças foram parar na gaveta embaixo das roupas para não serem encontradas.

Cheguei a sonhar que passei por aquela estação de metrô. SIM! Aquela mesma: a estação Parque, onde pela primeira vez eu encontrei o aconchego dos teus braços deitando no seu ombro sem saber que seria eterno pra mim. Senti falta de nós.

Também neste sonho eu saía na tentativa de encontrar alguém que te substituísse, que fizesse eu te esquecer, mas eu não encontrava. Sonhei que eu chorava a cada pessoa que se apaixonava por mim e eu me sentia vazio sem sentir nada por esta pessoa.

Até sonhei que pelas ruas de Paris ou de Madrid eu encontrava pessoas parecidas com você e então eu ficava um pouco em silêncio, secava algumas insistentes lágrimas e voltava pra casa.

Lembro que no sonho quando eu saía de algum bar ou discoteca eu sentia apertos no meu peito como nunca havia sentido na vida, que isso pressionava meus olhos e eu chorava de imensa saudade sua. Sem você se importar e mesmo depois de ter dito que não suportava mais meus choros ao telefone. ( A PARTE MAIS DURA DO SONHO, POR SINAL).

Sonhei que isso já durava 4 meses: sem sms, sem beijo, sem abraço, sem encontros, sem espera..

Apenas solidão!

Sonhei que você tinha quebrado todas as promessas que fez. E que no fim do sonho eu escrevia um texto em um blog qualquer, na esperança de algum dia te mostrar ou na esperança de que você estivesse lendo.

Então, de repente, eu acordei e tive que me dar conta que nada tinha sido um sonho e que isso tudo era a mais pura realidade que me acompanhava desde o seu último silêncio.

Andrio Robert Lecheta às 20:18 horas 18/07/2014

Ao som de Daydreaming – Paramore.

Nasce a Vida

vida

 

E então ela descobre que carregava dentro de si: Vida. Ela carrega mais VIDA!

Muito mais Vida do que imaginava.

A partir dali brotara dentro de si mais sentido e significado à existência.

Nesse momento e nos meses que se seguiram ela exalava V-I-D-A.

A Vida corria por suas veias, passava por seus pulmões e acalentava os dois corações que agora habitavam um só corpo.

Era vida que brotava e escorria dos olhos desde a primeira batida daquele pequeno coração. Aquele pedacinho de VIDA.

Em frente ao espelho , nua, observava em si que nada mais era como antes. Tudo estava cheio de VIDA. Com as mãos na barriga sentia o universo acontecendo dentro de si. Um BIG BANG de emoções coloridas com flores rosas e lilás.

Em todas as curvas do seu corpo havia essência de vida: em seu peito se preparando para amamentar, em seu quadril que agora estava maior e até em seus pés inchados. Até a dor era sinal que ali existia VIDA. Vida que pulsava como nunca.

E ali a Vida corria tão INTENSAMENTE que certo dia de seu peito veio um pouco de leite. Parecia magia! Havia deitado mulher e despertado mãe. Não que antes ela assim não se sentisse, mas agora seu corpo reagia ainda mais à tanta Vida.

Esperança no amanhã, a calma após o pesadelo, um pedido de paz e equilíbrio ao mundo: cada criança ,em cada ventre, traz consigo uma mensagem incontestável de amor  à vida. O milagre da multiplicação ( celular) estava acontecendo dentro dela.

Os raios de Sol em seu rosto agora eram os beijos de Deus e a brisa leve ao caminhar numa manhã de inverno: o sopro da VIDA.

Tanta Vida que a sensação era que ela era o universo. E cá entre nós: nesse momento ela é um universo. Um universo que transborda VIDA!

Andrio Robert Lecheta às 02:50 horas. 16/07/2014.

Ao som de Slow it Down e Stubborn Love – The Lumineers

(Uma homenagem à minha amiga/comadre PRISCILA , grávida da minha linda e primeira afilhada Helo!O anjo que vai trazer mais vida às nossas vidas!)

Memórias

 

one direction

 

Entrei naquela sala meio empoeirada. Era dia, mas estava um pouco escuro com a única luz que entrava pela janela. Ali estavam espalhados pelo chão alguns brinquedos, carrinhos e ursinhos. Havia ali uma criança, um pequeno menino.

Sentei-me na única cadeira que havia. Ele vestia uma camisa azul com desenho da Família Dinossauro e um calçãozinho creme. Estava descalço, sozinho, mexendo em seus brinquedos. A televisão antiga estava desligada e o toca discos fazia ruídos como se ali houvesse um vinil sem músicas.

No piso dava para ver os locais por onde aquele menininho passava para brincar. A poeira parecia ser já de semanas passadas.

Ele olhava para a janela fixamente por algumas vezes. Deitava com a cabecinha ao chão e por vezes até dormia algumas horas seguidas. Acordava, olhava para um lado e para o outro. Arriscava um “Papá!”. Sem resposta voltava  a se entreter com seus ursinhos dos quais ainda não tinha coordenação motora suficiente para manipular.

Às vezes chorava, choramingava e ninguém aparecia. Era um completo vazio.

Com seus brinquedos, haviam momentos em que ele soltava enérgicas gargalhadas que meus olhos lacrimejavam de tamanha pureza e essência. Era a fonte do ouro da felicidade. Eu me sentia eterno quando ele fazia isso.

Por momentos ele ficava longos períodos em absoluto silêncio girando uma bolinha com líquido azul e um peixinho dentro. Às vezes fixava o olhar na parede e rapidamente sorria ou então chorava. Balbuciava coisas como se já estivesse acostumado com toda aquela solidão por muito tempo e como se ali estivessem seus outros amiguinhos de sempre.

De repente entra uma mulher ali, com ar cansado e abatido. Chega perto do menino, dá-lhe um beijinho na testa e o chama por meu nome.

Andrio Robert Lecheta 13/07/2014 às 02:14 horas.

Ao som de OPEN YOUR EYES – Snow Patrol

Plié

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Relâmpagos acendiam e se propagavam por aquela sala toda de espelhos. Aquelas barras pareciam amaldiçoadas cheias de pesadelo e corpos esguios e doentes.

Os tons graves dos trovões faziam eco na minha cabeça. Se misturavam com a voz militar daquela professora. Eu só conseguia enxergar sua silhueta movendo-se pela sala toda como um espírito desgovernado, doce, malévolo, diabólico.

“CALCANHARES NO CHÃO, MENINA!”

Gritava como se estivesse adestrando um cão. Apenas eu e ela presas naquele inferno. Todas eram perfeitas! Apenas eu era a indisciplinada que precisava ficar até mais tarde nas aulas.

“TENDU! TENDU! ALINHA ESSE QUADRIL COM O OMBRO OU NÃO SAIREMOS DAQUI!”

Só de pensar nessa possibilidade me embrulhava o estômago e subia-me ânsia de vômito. Estômago vazio que degustou 3 folhas de alface às 11:00 horas da manhã e nada mais. Hoje é dia de minha mãe me pesar, tirar minhas medidas… Ela me mataria se eu não estivesse com os mesmos 42 quilos da semana passada.

“ATTITUDE! ATTITUDE! LEVANTA ESTA COXA, MENINA!”

Eu quero ser livre! Chega! Já estou suando frio. Está tudo girando, me sinto muito fraca e minhas mãos já estão formigando. Ainda chegarei em casa e minha mãe vai querer ver se melhorei o Sissone.

Me sinto escrava da vontade alheia. Estou presa na frustração dos sonhos das pessoas que me cercam!

“CABEÇA! BRAÇOS! PIRUETAS! PIRUETAS! NÃO VEJO ESFORÇO!”

Sua voz parecia chicote em minhas pernas, ombros, quadris e coxas. Esforço? Estou há 5 dias comendo alfaces para manter meu peso. Meus dedos estão em carne viva pelo treino  e quase não sinto meus pés ao caminhar na rua.

Essa barra parece ser a cruz que terei que carregar. Me sinto pregada à ela e à obsessão de minhã mãe me ver sendo o que ela fracassou. O fracasso é hereditário!

Cada trovão meu coração dispara. Cada relâmpago me parecia um flash irônico da vida fotografando minha existência vã e fracassada.

Cinco dias para o espetáculo dos horrores!

“SISSONE EN AVANT! SISSONE EN ARRIÈRE! SISSONE À LA SECOND!!!”

Era a última gota de sangue saindo para voltar ao demi-plié.

Meu corpo desfalece! Não há mais força.

Ao chão um corpo em mais um desmaio cotidiano ocultado pelas paredes espelhadas.

Espero um dia não me levantar mais.

Andrio Robert Lecheta. 11/07/2014 às 09:43 horas.

Ao som de LACRYMOSA  - Evanescence.

Cárcere

PRESO

 

Amanheceu mais um dia.

A insônia me fez companhia mais uma vez. Acho que já somos íntimos. Nos conhecemos tão bem.

Vaguei pela casa, pelos corredores. Abri a geladeira. Como sempre à procura de nada.

Fiz meu chá para curar a angústia da madrugada.

Eu não sei se está quente ou frio lá fora. Só noto que anoitece e amanhece pelas janelas que sempre estão com as cortinas abertas.

Olhos atentos ao celular. Será que hoje vem algum sinal?

NÃO!

Jogo um pouco de água no rosto. Se não dormi até agora, não quero mais.

Me  olho no espelho para ver se estou minimamente apresentável para  se por acaso a campainha tocar, eu poder sorrir e me passar por mais uma pessoa feliz acordando pela manhã ,disposto a fazer uma caminhada na Alameda ou levar o cachorrinho para passear.

Cabelo enrolado  e barba por fazer. Há quanto tempo eu não me via assim?

Nos azulejos brancos da cozinha as marcas dos meus passos indo e vindo o tempo todo numa espécie de espera mórbida.

Fazem 4 dias que eu não saio na rua. Acho que emagreci.

Todo mundo pensa que estou bem e feliz.

Estou sendo um bom ator.

A caneca de chá acabou.

Esse foi o último gole amargo da madrugada.

Andrio Robert Lecheta, 11/07/2014, às 08:09 horas.

Ao som de BROKEN – Lifehouse.